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O que sabemos sobre o papel da gripe nas granjas de suínos e sua relação com os humanos?

A gripe está muito presente nos meios de comunicação e, por isso, quisemos entender o nível de conhecimento dos nossos usuários sobre o papel da gripe em suínos e em humanos. Para isso, realizamos uma mini enquete entre nossos usuários.

Você pode acessar a pesquisa AQUI (embora já não possa participar).

Pergunta: Qual importância clínica você acredita que a gripe tem nos suínos?

(353 respostas)

Mais da metade dos participantes da pesquisa classificou a importância clínica dessa enfermidade como alta (com mais de 80% considerando-a moderada ou alta) (Figura 1).

Sabemos que o vírus da gripe compromete o sistema respiratório tanto do ponto de vista estrutural quanto funcional e reduz a atividade fagocítica dos macrófagos — principais responsáveis pela primeira linha de defesa —, diminuindo a capacidade do animal de eliminar patógenos. Essa condição favorece o surgimento ou agravamento de complicações bacterianas secundárias.

Estima-se que a manifestação clínica associada ao vírus da gripe gere perdas de cerca de R$15 por suíno comercializado, valor que pode chegar a R$50 em casos de coinfecção com PRRSV ou Mycoplasma hyopneumoniae.

Ainda assim, é provável que o impacto seja subestimado, devido à alta prevalência na maioria dos países — onde é difícil encontrar granjas negativas — e à frequente circulação de dois ou mais subtipos em uma mesma granja. Faltam estudos conclusivos que avaliem o impacto real desse cenário.

Pergunta: Você utiliza vacinação contra o vírus da gripe na sua granja?

(390 respostas)

Apesar do exposto e da percepção dos participantes sobre a importância clínica, cerca de um terço dos entrevistados declarou nunca vacinar contra a gripe. Observam-se diferenças geográficas marcantes: enquanto a Alemanha apresenta a maior taxa de uso rotineiro (72%), nos países asiáticos entre 92% e 100% dos respondentes afirmam nunca ter utilizado a vacina (Figura 1).

O que diz a literatura sobre a vacinação contra gripe em suínos?

Os estudos indicam que, em cenários de alta pressão de infecção, o retorno sobre o investimento pode ser significativo, impulsionado principalmente pela melhora no ganho médio diário e pela redução no uso de antibióticos. Alguns autores apontam que essa rentabilidade depende de uma eficácia vacinal igual ou superior a 80%; nesses casos, a vacinação pode gerar benefícios líquidos entre R$4,50 e R$17 por suíno.

Figura 1. Resultados mais significativos da pesquisa. Percepção do impacto da gripe e uso da vacinação em suínos.
Figura 1. Resultados mais significativos da pesquisa. Percepção do impacto da gripe e uso da vacinação em suínos.

Além do impacto clínico ou subclínico nas granjas, é essencial não subestimar o papel do suíno na ecologia do vírus da gripe, no qual atua como muito mais do que um simples hospedeiro.

Pergunta: qual das seguintes afirmações é verdadeira?

  • Os humanos podem ser fonte de infecção pelo vírus da gripe para os suínos (verdadeiro)
  • Os suínos podem ser fonte de infecção pelo vírus da gripe para os humanos (verdadeiro)
  • Ambas estão corretas (correta)
  • Nenhuma está correta
  • Não sei

(353 respostas)

A transmissão da gripe pode ocorrer tanto de humanos para suínos quanto de suínos para humanos.

Para iniciar a infecção, o vírus da gripe se liga a receptores de ácido siálico no epitélio respiratório. Existem duas configurações principais desses receptores, e a diferença entre elas constitui a principal barreira para que ocorra o salto do vírus entre espécies. O vírus também precisa superar outros fatores, como a diferença de temperatura corporal entre aves e mamíferos. Curiosamente, o suíno possui ambos os tipos de receptores, o que o torna um “recipiente de mistura” (Figura 2). Isso permite que seja infectado tanto por vírus aviários quanto por vírus humanos, facilitando o rearranjo genético e o surgimento de novas cepas com potencial pandêmico, como ocorreu em 2009. Vale destacar que, logo após a transmissão de suíno para humano, o vírus pandêmico de 2009 fez o caminho inverso.

Figura 2. Distribuição dos receptores do vírus da gripe em humanos, aves e suínos. Existem duas configurações principais desses receptores: a α-2,3, exclusiva das aves, e a α-2,6, predominante em humanos. O suíno apresenta ambas as configurações ao longo de todo o trato respiratório e, portanto, pode ser infectado com maior facilidade tanto por vírus aviários quanto por vírus humanos.
Figura 2. Distribuição dos receptores do vírus da gripe em humanos, aves e suínos. Existem duas configurações principais desses receptores: a α-2,3, exclusiva das aves, e a α-2,6, predominante em humanos. O suíno apresenta ambas as configurações ao longo de todo o trato respiratório e, portanto, pode ser infectado com maior facilidade tanto por vírus aviários quanto por vírus humanos.

Se analisarmos esse ponto com atenção, podemos concluir que a transmissão de humanos para suínos (zoonose reversa) parece ser muito mais frequente do que de suínos para humanos, como demonstrado pela análise filogenética das linhagens que circulam atualmente no rebanho suíno: a maioria tem origem humana (4 de 5 na América e 3 de 4 na Europa; a restante em cada continente é de origem aviária).

Apesar dessas evidências, a pesquisa revela que mais de 25% dos participantes desconhecem que a transmissão é bidirecional, e 14% consideram que a única via possível é do homem para o suíno.

Figura 3. Resultados mais significativos da pesquisa. Percepção sobre a transmissão do vírus da gripe entre humanos e suínos e a vacinação em pessoas. Por que as pessoas que têm contato contínuo com suínos (produtores, médicos veterinários…) ou com amostras potencialmente infectadas (pessoal de laboratório, frigoríficos…) devem se vacinar contra a gripe sazonal?
Figura 3. Resultados mais significativos da pesquisa. Percepção sobre a transmissão do vírus da gripe entre humanos e suínos e a vacinação em pessoas. Por que as pessoas que têm contato contínuo com suínos (produtores, médicos veterinários…) ou com amostras potencialmente infectadas (pessoal de laboratório, frigoríficos…) devem se vacinar contra a gripe sazonal?

Esse dado nos leva à análise da última pergunta:

Pergunta: você já se vacinou contra a gripe?

(366 respostas)

Embora mais de 85% reconheçam os humanos como fonte de infecção para os suínos, apenas 41,4% dos profissionais se vacinam anualmente contra a gripe sazonal, e mais de um quarto admite nunca ter se vacinado (Figura 3). Evidentemente, a vacinação dos profissionais que trabalham com suínos é uma das medidas mais simples que podemos adotar para minimizar o risco de infecção dos animais a partir dos humanos.

A análise demográfica e geográfica revela diferenças importantes:

  • os profissionais brasileiros apresentam as maiores taxas de vacinação anual (quase dois terços).
  • na Itália, cerca de 50% nunca se vacinaram;
  • chama atenção o caso da Alemanha, onde mais de um terço dos entrevistados afirma nunca ter se vacinado, apesar de apresentar as maiores taxas de vacinação nos animais.

Em relação à idade, observa-se uma correlação direta entre idade e vacinação. O grupo com mais de 55 anos é o mais consciente (63% de vacinação anual), enquanto entre os menores de 35 anos esse índice é de 30%. Nesse último grupo, 12,5% adotaram o hábito apenas durante a pandemia de COVID-19, o que sugere baixa adesão à vacinação sazonal fora de contextos de crise sanitária.

Considerando que a vacinação sazonal do pessoal em contato com suínos vai além da proteção individual, esse dado merece atenção.

Não parece haver uma real resistência à vacinação, mas sim uma falta de hábito em algumas faixas etárias, possivelmente associada à baixa percepção do papel do humano como fonte de infecção para os suínos, entre outros fatores.

A vacinação de funcionários de granja e médicos veterinários não é apenas uma medida de saúde individual, mas uma prática essencial de biosseguridade para proteger tanto a produção animal quanto a saúde humana (Figura 4). Além da vacinação, outra medida simples é restringir o acesso aos animais de profissionais que apresentem sintomas compatíveis com gripe.

Figura 4. Por que devemos nos vacinar contra a gripe?
Figura 4. Por que devemos nos vacinar contra a gripe?

Tabla 1. Conclusões.

Alta conscientização, mas baixa correlação com a nossas ações.

Sanidade animal:

Forte percepção do impacto da gripe nos suínos: mais de 80% consideram que o impacto é moderado ou alto.

Implementação da vacinação: apesar dessa percepção, a implementação da vacinação ainda tem muito espaço para avançar.

  • Existe uma porcentagem relevante, incluindo produtores e médicos veterinários, que não sabe se a vacina é aplicada em suas granjas.
  • Observam-se diferenças geográficas marcantes em relação ao uso da vacinação em suínos.
Transmissão entre espécies e saúde humana:

Alta percepção do risco de infecção bidirecional: 71,5% dos entrevistados sabem que humanos podem infectar suínos e vice-versa. No entanto:

Vacinação em pessoas:

Reticência: 26% dos entrevistados nunca receberam vacina contra a gripe sazonal, apesar de trabalharem em um ambiente de risco.

Diferença entre perfis: enquanto quase metade dos médicos veterinários mantém vacinação anual, 40,2% dos produtores nunca se vacinaram contra a gripe.

Diferença geográfica: há variações importantes entre países quanto às taxas de vacinação anual.

Efeito da idade: os entrevistados mais jovens apresentam as menores taxas de vacinação anual; 40% se vacinam, mas não de forma regular.

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