O equilíbrio entre eficiência e rentabilidade na suinocultura em tempos de crise
Inter-relações entre o Mercado de Grãos e a Produção de Suínos em Cenários de Crise Econômica e Produtiva
A relação entre a suinocultura e o mercado de grãos no Brasil é profundamente interdependente e estratégica. Milho e soja, principais componentes da alimentação dos suínos, representam cerca de 60% a 80% do custo variável total que compõe a produção.
Essa dependência estrutural torna a cadeia produtiva extremamente vulnerável às oscilações dos preços dessas commodities, que são constantemente influenciadas por diversos fatores internos e externos (FIALHO; ARAÚJO, 2021).
Nas últimas safras, o setor vivenciou momentos de forte instabilidade. Eventos climáticos críticos, como secas severas e chuvas excessivas, comprometeram a produtividade agrícola em várias regiões do país. Ao mesmo tempo, crises geopolíticas, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, afetaram diretamente a logística global, interrompendo fluxos de exportação e encarecendo os fretes internacionais.
Como resultado, os preços dos grãos atingiram patamares historicamente elevados, pressionando ainda mais o custo de produção das granjas (ABPA, 2024; CEPEA, 2024).
Do ponto de vista da demanda, o mercado interno tem mostrado sinais de retração. A continuidade de um ambiente macroeconômico adverso, caracterizado por inflação persistente, taxa básica de juros elevada e crescimento econômico modesto, reduziu significativamente o poder de compra da população.
Esse quadro impacta diretamente no consumo de proteínas de origem animal, especialmente a suína, considerada uma alternativa intermediária entre o frango e a carne bovina em termos de preço. Mesmo com o aparente ganho de competitividade relativo, o consumo per capita estagnou, limitando o escoamento da produção nacional (SOUZA et al., 2023).
No mercado internacional, embora o Brasil se destaque como um dos principais exportadores mundiais de carne suína, o setor enfrenta obstáculos como a imposição de barreiras sanitárias, exigências técnicas rigorosas e intensa concorrência de países como os Estados Unidos, União Europeia e Canadá. Além disso, variações cambiais e incertezas comerciais dificultam o planejamento de médio e longo prazo dos produtores (MAPA, 2024; GARCIA et al., 2024).
Com uma produção predominantemente tecnificada e baseada em sistemas intensivos, a suinocultura brasileira exige investimentos elevados em áreas como nutrição, manejo, biosseguridade, ambiência e bem-estar animal.
Diante da alta nos custos de insumos, muitos produtores têm adotado estratégias de curto prazo, como reformulação de dietas, negociação antecipada de contratos com fornecedores, substituição parcial de ingredientes por subprodutos e racionalização do uso de aditivos. No entanto, essas ações nem sempre são suficientes para equilibrar as contas (EMBRAPA SUÍNOS E AVES, 2023).
Assim, a relação entre o mercado de grãos e a suinocultura vai muito além de um simples fator conjuntural, trata-se de um elo estrutural e determinante para a viabilidade econômica do setor. Para enfrentar os desafios impostos pelos cenários de crise, torna-se fundamental adotar uma gestão mais estratégica, que envolva mecanismos de proteção contra a volatilidade dos preços, diversificação de canais de venda, uso de inteligência de mercado, além da incorporação de tecnologias que aumentem a produtividade e reduzam o desperdício.
A capacidade do setor de inovar, adaptar-se e manter-se resiliente diante de um ambiente altamente incerto será decisiva para sua sustentabilidade e competitividade no médio e longo prazo (SANTOS; OLIVEIRA, 2024).
A Participação da Nutrição na Composição do Custo de Produção de Suínos
A alimentação dos animais é, indiscutivelmente, o principal componente dos custos operacionais na suinocultura. Em algumas regiões e sistemas produtivos, a nutrição pode representar até 80% dos custos totais, especialmente em granjas de ciclo completo e de alta tecnificação.
A composição da ração baseia-se, em grande parte, no uso de milho como fonte energética e de farelo de soja como principal fonte proteica, ambos altamente suscetíveis às variações de mercado (ROSTAGNO et al., 2017).
Essa volatilidade dos preços, fortemente influenciada por fatores climáticos, safras internacionais, custos logísticos e variações cambiais, impõe grande desafio à previsibilidade e ao planejamento financeiro das granjas. Com margens cada vez mais estreitas, é essencial acompanhar de perto os movimentos do mercado de insumos, realizar compras estratégicas e, sempre que possível, buscar maior integração vertical para reduzir a dependência do mercado aberto (CEPEA, 2024; GARCIA et al., 2024).
Cada fase do ciclo produtivo dos suínos apresenta exigências nutricionais específicas, que devem ser respeitadas para garantir o desempenho zootécnico ideal e evitar perdas econômicas.
A fase de terminação, por exemplo, é responsável por uma grande parcela da ingestão de ração total e, portanto, é um ponto crítico para a eficiência alimentar. Dietas mal balanceadas nesta fase podem acarretar aumento no custo por quilo produzido, perda de desempenho e comprometimento do rendimento de carcaça (EMBRAPA SUÍNOS E AVES, 2023).
A adoção de curvas alimentares personalizadas, com formulações específicas para cada peso vivo ou estágio fisiológico, tem se mostrado uma ferramenta importante para otimizar a conversão alimentar e evitar o fornecimento excessivo de nutrientes.
Além disso, o avanço das tecnologias de nutrição de precisão, como softwares de gestão, balanças automáticas, sistemas de alimentação eletrônica e sensores de monitoramento de consumo, permite uma gestão mais fina e inteligente dos recursos alimentares, promovendo ajustes quase em tempo real conforme as condições do lote e do mercado (SOUZA et al., 2023).
Outras estratégias vêm sendo cada vez mais incorporadas, como o uso de ingredientes alternativos ou subprodutos, aditivos que favorecem a digestibilidade e o aproveitamento dos nutrientes, além de ajustes na densidade energética e proteica das dietas em função da cotação dos principais insumos.
Essas medidas visam garantir o desempenho zootécnico sem comprometer a rentabilidade, transformando a nutrição em uma alavanca estratégica de competitividade (ROSTAGNO et al., 2017).
Portanto, mais do que um fator técnico, a alimentação animal assume um papel de destaque na gestão econômica da granja, exigindo do produtor conhecimento técnico, visão de mercado e capacidade de adaptação constante (FIALHO; ARAÚJO, 2021).
Estratégia Financeira X Desempenho Zootécnico: Equilibrando eficiência e rentabilidade na suinocultura
Diante de um ambiente de negócios cada vez mais desafiador, o suinocultor precisa integrar de forma sinérgica as áreas técnica e financeira da produção. A busca pela eficiência produtiva não pode estar dissociada de uma análise detalhada dos custos, margens e retorno sobre o investimento.
A gestão da atividade exige, portanto, uma abordagem profissionalizada, baseada em dados e indicadores confiáveis (SANTOS; OLIVEIRA, 2024).
O primeiro passo é o domínio dos custos de produção por etapa, o que inclui a separação clara entre custos fixos e variáveis, identificação dos principais centros de custo e avaliação de sua evolução ao longo do tempo. Ferramentas de controle, como dashboards em tempo real, planilhas dinâmicas, softwares de gestão zootécnica e financeira e relatórios analíticos, possibilitam uma gestão mais precisa e menos sujeita a erros, favorecendo a tomada de decisões mais rápidas e assertivas (SOUZA et al., 2023).
No campo zootécnico, o monitoramento contínuo de indicadores como consumo diário de ração, ganho de peso diário (GPD), conversão alimentar (CA), peso médio ao abate e índice de mortalidade é essencial para detectar desvios precocemente.
A correção de rumos com base nesses dados permite reduzir desperdícios e aumentar a eficiência global do sistema produtivo (GARCIA et al., 2024).
Do ponto de vista financeiro, é crescente a adoção de ferramentas de proteção de preços, como contratos futuros e opções de compra de grãos, que ajudam a mitigar riscos e a garantir maior previsibilidade orçamentária. Negociações coletivas entre produtores, parcerias estratégicas com fornecedores e consórcios de compra também têm ganhado espaço como alternativas para redução de custos e aumento do poder de barganha (MAPA, 2024).
O acesso ao crédito rural, especialmente voltado à modernização tecnológica, ambiência e melhorias de bem-estar animal, é outro componente chave para a sustentabilidade do negócio.
No entanto, é indispensável que cada investimento seja precedido por análises detalhadas de viabilidade econômica, retorno esperado e impacto na estrutura de custos. O endividamento sem planejamento pode comprometer a saúde financeira da granja e limitar sua capacidade de reação em momentos de crise (FERREIRA; ZANELLA, 2022).
Equilibrar técnica e finanças exige um modelo de gestão orientado por metas claras, com foco em resultados e participação ativa das equipes envolvidas na produção. O engajamento dos colaboradores, aliado a uma cultura organizacional de eficiência e melhoria contínua, potencializa os resultados e promove a sustentabilidade do negócio (SANTOS; OLIVEIRA, 2024).
Em síntese, o sucesso na suinocultura atual depende menos de fatores isolados e mais da capacidade de integração entre áreas, inovação constante e resposta rápida às mudanças do mercado. A rentabilidade deixa de ser apenas consequência do desempenho técnico e passa a ser fruto de uma gestão estratégica e profissional (SOUZA et al., 2023).
Referências
ABPA – Associação Brasileira de Proteína Animal. Relatório Anual 2024. São Paulo: ABPA, 2024. Disponível em: https://abpa-br.org. Acesso em: 05 jul. 2025.
CEPEA – Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada. Indicadores de Preços de Grãos e Carne Suína. ESALQ/USP, 2024. Disponível em: https://www.cepea.esalq.usp.br. Acesso em: 08 jul. 2025.
EMBRAPA SUÍNOS E AVES. Indicadores econômicos da suinocultura industrial. Concórdia: Embrapa, 2023. Disponível em: https://www.embrapa.br/suinos-e-aves. Acesso em: 08 jul. 2025.
FIALHO, E. T.; ARAÚJO, J. A. Nutrição de suínos: fundamentos e aplicações. Lavras: UFLA, 2021.
FERREIRA, R. A.; ZANELLA, R. Custos e gestão econômica na produção de suínos. In: SILVA, C. A. da et al. (org.). Gestão na suinocultura moderna. Concórdia: Embrapa, 2022. p. 109-136.
GARCIA, R. G. et al. Estratégias para redução de custos na alimentação de suínos sem comprometer o desempenho zootécnico. Revista Brasileira de Agropecuária Sustentável, v. 14, n. 2, p. 85-93, 2024. DOI: 10.21205/rbas.v14i2.435.
MAPA – Ministério da Agricultura e Pecuária. Boletim de inteligência de mercado da carne suína – 2024. Brasília: MAPA/SPA, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura. Acesso em: 10 jul. 2025.
ROSTAGNO, H. S. et al. Tabelas brasileiras para aves e suínos: composição de alimentos e exigências nutricionais. 4. ed. Viçosa: UFV, Departamento de Zootecnia, 2017.
SAKAGUTI, E. S. et al. Impacto da volatilidade do milho e da soja sobre a rentabilidade da suinocultura brasileira. Revista de Economia e Sociologia Rural, Brasília, v. 61, n. 3, p. 1-18, 2023. DOI: 10.1590/1806-9479.2023.261157.
SANTOS, M. T. dos; OLIVEIRA, A. C. de. Gestão estratégica da produção suinícola: integração entre técnica e finanças. Cadernos de Gestão Agroindustrial, v. 19, n. 1, p. 55-70, 2024.
SOUZA, L. F. et al. Tecnologias aplicadas à nutrição de precisão na suinocultura. In: SANTOS, J. V. dos; ZANELLA, R. (org.). Inovações tecnológicas na produção de suínos. Brasília: MAPA, 2023. p. 33-58.
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