Preço do suíno estabiliza, mas há pressão nos custos com atraso do plantio da segunda safra de milho e guerra no Oriente Médio

Após queda nas cotações nos meses de janeiro e fevereiro, o preço do suíno estabilizou em março (gráficos 1 e 2), mostrando recente ajuste na oferta e demanda. Dados preliminares do SIF indicam um aumento do abate ao redor de 2,5% no primeiro bimestre deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado.
Gráfico 1. Indicador CARCAÇA SUÍNA ESPECIAL – CEPEA/ESALQ (R$/kg) em São Paulo/SP, mensal, nos últimos 60 dias úteis, até dia 19/03/2026.
Fonte: CEPEA
Gráfico 2. Indicador SUÍNO VIVO – CEPEA/ESALQ (R$/kg) em MG, PR, RS, SC e SP, mensal, de outubro/25 a 19 de março de 2026.
Fonte: CEPEA.
O aumento da oferta no mercado doméstico já vinha ocorrendo em 2025, conforme apontam os dados definitivos de abate do IBGE, publicados no último dia 18, indicando que a produção brasileira de carne suína (carcaças) aumentou quase 300 mil toneladas (5,54%) em relação a 2024 (tabela 1). Como o incremento das exportações em 2025 foi de pouco mais de 140 mil toneladas, a disponibilidade interna cresceu 3,73% (156 mil toneladas), excedente que o mercado doméstico absorveu bem e que determinou ultrapassarmos a barreira dos 20 kg per capita ano de consumo (gráfico 3).
Tabela 1. Balanço da suinocultura brasileira de 2019 a 2026 e crescimento percentual de alguns índices no período.
Elaborado por Iuri P. Machado, sobre dados do IBGE e SECEX.
Gráfico 3. Evolução do CONSUMO PER CAPITA de carne suína no Brasil, de 2015 a 2026, em kg por habitante por ano.
Elaborado por Iuri P. Machado
Fontes dos dados para cálculo do consumo per capita, pela metodologia da ABCS:
Abate de suínos (IBGE): https://sidra.ibge.gov.br/tabela/1093; Exportação brasileira de carne suína in natura: https://comexstat.mdic.gov.br/pt/geral (Posição: SH4; código 103); População brasileira (IBGE):https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6579
Quando se analisa a participação das Unidades Federativas no abate, chama a atenção o crescimento percentual expressivo da produção, de 2025 em relação a 2024, muito acima da média, dos estados de Minas Gerais (11,35% em toneladas) e Mato Grosso do Sul (14,36% em toneladas), sendo que este último ultrapassou o Mato Grosso e assumiu a quinta posição no ranking nacional (tabela 2). O crescimento do abate de Minas Gerais, cujo plantel de produtores independentes é o maior do Brasil, explica em parte o porquê os preços de suínos para abate praticados neste estado, desde março de 2025, estão abaixo de São Paulo.
Tabela 2. Abate brasileiro anual de suínos por Unidade Federativa, em 2025 e 2024, em cabeças e toneladas de carcaças (total e peso médio em kg), participação de cada estado sobre o total e diferença de um ano para o outro.
Destaque em azul para crescimento e em laranja para redução de 2025 em relação a 2024.
Elaborado por Iuri P. Machado, com dados do IBGE.
Um fator importante a se observar é a competitividade da carne suína com as outras carnes. A virada de ciclo pecuário finalmente se concretizou com a redução de abate de bovinos nos meses de janeiro e fevereiro/26 em relação ao mesmo período do ano passado (SIF), depois de mais de 2 anos de abate crescente. Essa redução da produção refletiu diretamente na alta das cotações do boi gordo, com a arroba se aproximando da marca de 350 reais no mercado paulista (gráfico 4).
Gráfico 4. Indicador MENSAL do BOI GORDO CEPEA/ESALQ (R$/@) no estado de São Paulo, nos últimos 6 meses (até 19/03/26).
Fonte: CEPEA
Porém esta alta do boi gordo ainda não refletiu com a mesma intensidade no varejo que reduziu as margens significativamente neste início de ano, com spread (percentual) em relação ao atacado em níveis muito mais baixos que a média dos últimos anos, conforme demonstra o gráfico 5, a seguir. Sem a alta do preço da carne bovina ao consumidor final na mesma proporção que o preço pago ao produtor, a interferência do preço do boi gordo sobre as cotações do suíno vivo torna-se insignificante.
Gráfico 5. Spread varejo/atacado da carne bovina em São Paulo.
Elaborado por Mbagro, com dados da Intercarnes e Procon
O frango que já vinha com a precificação em baixa desde a virada do ano, agora sofre com o agravamento do conflito no Oriente Médio que é o destino de quase 1/3 das exportações brasileiras desta proteína. Não se espera a suspensão completa dos embarques para aquele destino, porém o aumento do custo logístico já está posto e pode reduzir significativamente os volumes exportados de frango que mantém trajetória de queda nas cotações (gráfico 6).
Gráfico 6. Cotação média mensal do FRANGO RESFRIADO em São Paulo (SP), em R$/kg de carcaça, nos últimos seis meses.
Média de março até dia 19/03/2026.
Fonte: CEPEA
Com produção de suínos crescente e mercado doméstico “andando de lado” a pergunta é: “como está a exportação?” um importante canal de comercialização e que vem ganhando cada vez mais espaço e que, em 2025, ultrapassou os 23% da destinação da produção nacional, assumindo o terceiro lugar no comércio mundial e ultrapassando o Canadá. A resposta é: “vai muito bem em 2026!” com crescimento acima do esperado, sendo que, no acumulado de janeiro e fevereiro, com 204,7 mil toneladas de carne suína in natura, superou em 8,3% os volumes embarcados no mesmo bimestre de 2025. Isto representa pouco mais de 15 mil toneladas a mais exportadas, num período em que, estimativas preliminares indicam um crescimento da produção ao redor de 2,5% (+22 mil toneladas), ou seja, haveria um excedente no primeiro bimestre em torno de 7 mil toneladas que foram ofertadas a mais no mercado doméstico em janeiro e fevereiro de 2026.
A mesma relativa estabilidade do mercado de carne suína não ocorre quando o assunto é custo de produção. O atraso do plantio da segunda safra de milho, que hoje representa quase 80% de toda produção nacional deste cereal, é motivo de preocupação e determinou uma alta considerável nas cotações nas últimas semanas (gráfico 7).
Gráfico 7. Preço médio diário do MILHO (R$/SC 60kg) em CAMPINAS-SP, nos últimos 30 dias úteis, até dia 20/03/2026.
Fonte: CEPEA
O custo das rações só não subiu mais porque as cotações do farelo se soja têm se mantido relativamente estáveis, mas a relação de troca entre o preço do suíno vivo e os principais insumos, milho e farelo de soja, vem caindo mês a mês, desde outubro de 2025, conforme o gráfico 8, a seguir.
Gráfico 8. Relação de troca SUÍNO : MIX milho + farelo de soja (R$/kg) em São Paulo, de janeiro/25 a março/26. Relação de troca considerada ideal, acima de 5,00
Composição do MIX: para cada quilograma de MIX, 740g de milho e 260g de farelo de soja.
Média de março de 2026 até dia 20/03/2026.
Elaborado por Iuri P. Machado com dados do CEPEA – preços estado de São Paulo
Esta pressão nos custos, aliada ao recuo das cotações do suíno, determinaram, no início deste ano, margens muito apertadas na suinocultura, próximas do ponto de equilíbrio (tabela 3). Como se não bastassem as incertezas climáticas para o estabelecimento da “safrinha” de milho, as consequências indiretas do conflito no Oriente Médio trazem pressão sobre o preço dos combustíveis e fertilizantes, o que resulta em inflação em toda cadeia de produção, além de ameaçarem e/ou encarecerem a logística no fluxo de exportações de frango, o que pode reduzir a competividade da carne suína no mercado doméstico, dificultando uma eventual retomada de ciclo de alta nas cotações do suíno.
Tabela 3. Custos totais (ciclo completo), preço de venda e lucro/prejuízo estimados, mensais, nos três estados do Sul (R$/kg suíno vivo vendido) de janeiro a dezembro de 2025; janeiro e fevereiro de 2026 e a média anual de 2024. Destaque para o mês de fevereiro/26 com a menor margem de lucro do período apresentado.
Elaborado por Iuri P. Machado com dados: Embrapa (custos), Cepea (preço do suíno)
O presidente da ABCS, Marcelo Lopes, explica que: “Apesar das exportações de carne suína ainda em crescimento, o setor se encontra em um dos momentos mais delicados dos últimos dois anos, com fortes indicativos de que estamos saindo de um ciclo muito favorável para um período bastante desafiador para a atividade. Os impactos do conflito no Oriente Médio já são percebidos no agronegócio brasileiro e o suinocultor deve ficar atento aos movimentos especulativos comuns nesse ambiente de incertezas”. Ele orienta buscar informações de fontes confiáveis e embasadas, “É fundamental para que as decisões sejam tomadas com o máximo de assertividade possível. O preço e o custo são definidos por inúmeros fatores, mas sempre o principal deles é o equilíbrio entre oferta e procura”, conclui.
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