Vinte anos de Circovírus no Brasil: Qual é o vírus de hoje?

14-Ago-2020
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Desde a publicação sobre a detecção do primeiro isolado de circovírus suíno no Brasil (1) muito foi aprendido, entendido e adequado até a chegada das primeiras vacinas.

A chegada das primeiras vacinas comerciais, ocorreu em torno de 2007. Este momento foi um divisor de águas, uma vez que os anos que antecederam a introdução das vacinas comerciais, a produção de suínos passou por diversos desafios, e reestruturações, por se tratar de um agente primário com característica multifatorial e que trouxe muitos prejuízos à suinocultura (2).

As vacinas comerciais quando introduzidas nas granjas foram extremamente eficazes, e em função disso, praticamente 100% das granjas utilizam a vacina para circovirose até hoje, o que fez com que os quadros clínicos reduzissem, significativamente.

Entretanto, a partir de 2015 houve um aumento de quadros clínicos e subclínicos de circovirose mesmo em granjas que utilizavam vacina há alguns anos, sendo atribuído, principalmente, a possíveis quadros de falha vacinal. Ao isolar o PCV2 e realizar o sequenciamento, foi verificada a presença de novos genótipos do PCV2, representados pelos PCV2b e PCV2d, o que se acredita ser decorrente de uma pressão de seleção em decorrência do uso da vacina. Um estudo conduzido pela Ourofino Saúde Animal verificou uma cocirculação no Brasil de 50% de PCV2b e PCV2d em 50% cada, sendo, atualmente, o PCV2a praticamente inexistente em granjas brasileiras (Gráfico 1) (4).

Esta evolução fez com que o vírus sofresse mutações pontuais na região ORF2, em epítopos específicos de importância para o reconhecimento de anticorpos (Ac) e de conformação do vírus, aumentando a chance de possíveis falhas vacinais devido a alterações bioquímicas dos aminoácidos em questão (3). Além disso, estudos demonstram que apesar dos resultados de viremia, sinais clínicos, e quantidade de INF-γ não apresentarem diferenças estatísticas, há uma redução significativa da quantidade de anticorpos (Ac) neutralizantes em leitões vacinados com vacinas PCV2a, e desafiados com os genótipos PCV2b e PCV2d (5). Isto confirma que mesmo pontual, as mutações de aa em regiões de importância para resposta imune e de conformação aumentam significativamente e claramente as chances de falha vacinal, levando a médio/longo prazo a uma mudança da epidemiologia da doença como, ultimamente, vem sendo observada a campo.

Esta mudança se dá através da detecção e observação de leitões próximos à idade de desmame (21 a 28 dias de média) com a presença de alta carga viral em fluido oral (amostra ambiental) e no soro (amostra indivíduo), demonstrando uma circulação importante do vírus nas matrizes, o ambiente já estar com uma circulação importante de PCV2 em um momento em que ele não deveria estar lá presente, assim com a presença de leitões com média a alta viremia.

Portanto, a atualização de vacinas utilizadas para circovirose passa a ser um fator essencial no intuito de reduzir possíveis riscos de falha vacinal e/ou “escape imunológico”.

Artigo escrito por Andrea Panzardi
Especialista técnica em Biológicos - suínos

 

 

Referências Literárias

(1) Ciacci-Janela, J.R.; Morés, N. Síndrome multissistêmica do definhamento do leitão desmamado (SMDLD) causado pelo circovírus suíno. Congresso Mercosur de Producción Porcina. Memória, Buenos Aires, p.16, 2000. (2) Ciacci-Janela, J.R.C, Morés, N. 2017. Situação atual da circovirose no Brasil. Anais Congresso ABRAVES – Associação Brasileira de Veterinários Especialistas em Suínos. Goiânia, ABRAVES - GO. p. 150 – 157. (3) Huang, L.P., Lu, Y.H., Wei, Y.W., Guo, L.J., Liu, C.M., 2011. Identification of one critical amino acid that determines a conformational neutralizing epitope in the capsid protein of porcine circovirus type 2. BMC Microbiol. 11, 188. (4) Panzardi,A., Faim L, Hirose F, et al. Caracterização e dinâmica de evolução dos diferentes genótipos de circovírus no Brasil ao longo dos anos de 2003 a 2018. Anais SINSUI 2019. p. 226-227. (5) Park, KH, Oh,T, Yang S, Cho H,, Kang I., Chae C. Evaluation of a porcine circovirus type 2a (PCV2a) vaccine efficacy against experimental PCV2a, PCV2b, and PCV2d challenge. Veterinary Microbiology 231 (2019) 87–92.

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