As crescentes tensões no Oriente Médio e o fechamento parcial do Estreito de Ormuz estão gerando ondas de choque mensuráveis em todo o setor global de alimentos e agronegócio. É o que aponta um novo relatório divulgado este mês pelo Rabobank, destacando que a disrupção introduz um ambiente de risco sistêmico com impactos estruturais profundos nas cadeias de suprimentos e nas margens de produtores e indústrias.
O impacto primário, segundo os pesquisadores Justin van der Sluis e Maria Castroviejo, concentra-se no mercado de energia. O Estreito de Ormuz por onde transitam cerca de 20% dos líquidos de petróleo globais diariamente, é o principal gargalo energético do mundo. O relatório traça um cenário em que, com um bloqueio prolongado, o barril de petróleo Brent poderia se aproximar de US$ 110, e o gás natural europeu (TTF) bateria a marca de € 100/MWh.
A Ásia é a região mais vulnerável fisicamente a esse choque: o Oriente Médio fornece 95% das importações de petróleo do Japão, cerca de 55% da China e da Índia, 70% da Coreia do Sul e 60% dos países da ASEAN. Como a indústria responde por cerca de 50% do consumo total de energia na China e no Vietnã (contra 24% na União Europeia), a disrupção ameaça o crescimento econômico asiático.
Fertilizantes: ameaça Imediata aos custos de produção
O mercado de fertilizantes é um dos focos de maior alerta. O Oriente Médio é um polo crucial e o Estreito de Ormuz é a rota para:
- 50% das exportações globais de enxofre;
- 30% das exportações globais de ureia (e 25% a 30% do nitrogênio global);
- 20% das remessas de amônia;
- 15% das exportações de MAP, DAP e TSP (fosfatados).
O Rabobank destaca que o tráfego de embarcações caiu para quase zero. Como resultado, a ureia do Norte da África registrou alta de 20% e o gás natural na UE saltou cerca de 70% apenas na primeira semana do conflito. O cenário se agravou com a paralisação da produção de GNL no Catar, forçando o fechamento da planta da QAFCO, com capacidade de 5,6 milhões de toneladas métricas/ano de ureia.
Segundo o banco, um aumento sustentado de 20% a 30% nos preços da amônia e do enxofre pressionaria severamente as margens globais. Vale lembrar que os fertilizantes representam frequentemente entre 40% e 50% dos custos variáveis nas lavouras de grãos.
Logística e o impacto no comércio de proteínas
A região do Golfo Pérsico importa anualmente quase US$ 90 bilhões em produtos alimentícios e agrícolas. A crise já inflaciona os fretes globais. O relatório cita que o mercado já relata custos extras de US$ 4.000 por contêiner para as importações chinesas de carne congelada, traduzindo-se em um aumento de cerca de 2,5% no custo por tonelada métrica de carne bovina.
O setor de proteína animal sente o golpe de forma aguda. O Oriente Médio representa 15% do comércio global de aves e quase 10% do crescimento da produção global. Além disso, a região absorve cerca de 12% das exportações de aves da China e 5% da Tailândia — remessas que atualmente estão suspensas, gerando acúmulo de estoques nestes países asiáticos.
Para a Austrália, o impacto é gigantesco na ovinocultura: o Oriente Médio é o destino de 90% das ovelhas vivas exportadas pelo país, além de comprar 19% das exportações australianas de carne de cordeiro e 31% de carne de carneiro (dados de 2025). No setor de laticínios, cerca de 6% das exportações da Europa e Nova Zelândia que têm a região como destino também passam pela rota em conflito.
Embalagens: plástico e papel sob pressão
A cadeia de embalagens, intimamente ligada ao setor alimentício, também sofre. O Oriente Médio fornece cerca de um terço da nafta comercializada globalmente. O fechamento do estreito restringe aproximadamente 1,2 milhão de barris por dia (mbpd) de fluxos de nafta e afeta o trânsito de US$ 20 a 25 bilhões anuais em produtos petroquímicos.
O impacto é severo para a indústria, uma vez que as resinas plásticas representam de 50% a 70% dos custos dos produtos vendidos para embalagens de polietileno (PE) e polipropileno (PP).
O mercado de papel também sente os reflexos da restrição de demanda. A região do Oriente Médio importou, em 2025, cerca de 725.000 toneladas métricas de containerboard (papelão ondulado) e 200.000 toneladas métricas de cartonboard (papel cartão), volumes que agora os produtores europeus, que já enfrentam excesso de oferta, terão dificuldade em escoar.
O Reflexo no Consumidor Final: Inflação e "Trade Down"
Na ponta final da cadeia, o consumidor pagará a conta. O Rabobank projeta que, sob um cenário de energia cara e prolongada, a inflação superará a marca de 3% tanto na Zona do Euro quanto nos Estados Unidos em 2026, com o crescimento econômico recuando cerca de 0,3 ponto percentual em relação às projeções anteriores.
Nesse ambiente, espera-se um declínio real nas vendas do varejo alimentar (de estável a -0,5%), com consumidores acelerando o chamado trade down (troca por produtos e marcas mais baratas, como as de marca própria). Os serviços de alimentação (foodservice) perderão tráfego, à medida que fatias maiores do orçamento familiar serão consumidas pela alta da gasolina e do diesel.

Em resumo, a instabilidade prolongada testa toda a espinha dorsal logística e de custos do agronegócio, drenando as margens desde o agricultor exposto à alta dos fertilizantes até a indústria de processamento e o consumidor final espremido pela inflação.
Confira o relatório completo. Clique aqui!
17 de março de 2026/ ACCS com dados do Rabobank/ Brasil.
https://accs.org.br


